Lendo o suplemento de literatura da Folha de São Paulo (Ilustríssima), me deparei com a introdução do do livro "Primeira Guerra Total" [Record, trad. Miguel Soares Palmeira, 546 págs., R$ 69,90], de David A. Bell. Na obra, o historiador americano relaciona as invasões napoleônicas aos conflitos internacionais que ocorrem atualmente, na era dos aviões não tripulados. Segundo o autor, a primeira guerra total, ou seja, situação em que as forças em combate estão dispostas a fazer qualquer sacrifício para conseguir a vitória, ocorreu na Europa do século 18. Lei a introdução abaixo.
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Os anos de 1889 e 1890 foram de júbilo e esperança. Um regime poderoso e abominado não apenas ruiu inesperadamente, como o fez de modo surpreendentemente pouco violento. Em meio a suas ruínas, uma nova ordem internacional parecia tomar forma, construída a partir do respeito à paz, à democracia e aos direitos humanos. O momento pareceu tão transformador que muitos pensadores avançados previram nada menos do que o advento do fim da guerra.
A desilusão, no entanto, veio com velocidade cruel. Os anos seguintes não trouxeram paz, e sim uma violência ininterrupta, que as potências dominantes descobriram ser infelizmente difícil de conter. Rapidamente, a expectativa generalizada de fim da guerra deu lugar à igualmente difundida convicção de que uma era de conflito apocalíptico havia começado. De fato, argumentou-se amplamente que, para derrotar adversários malignos, agora era necessário travar guerras demoradas e de grandes proporções, com medidas outrora condenadas como bárbaras.
O curioso dessa descrição é que ela se aplica igualmente bem a dois séculos diferentes. Mais obviamente para nós, aplica-se ao período que se iniciou em 1989-1990. Mesmo antes de os alicerces apodrecidos da União Soviética terminarem de cair por terra, cientistas políticos de renome defendiam que o fim das guerras estava próximo. Alguns pensavam que o mundo simplesmente começava a banir os conflitos de larga escala.
Outros acreditavam que a paz viria da difusão da democracia, pois democracias supostamente não lutariam entre si. Francis Fukuyama, em um artigo famoso e injustamente desqualificado, associou o fim da guerra ao "fim da história", querendo com isso denotar o fim de conflitos em torno da forma apropriada de sociedade.
Em vez do fim das guerras, claro, seguiu-se uma intensificação do conflito e do perigo: na Guerra do Golfo, na Guerra dos Bálcãs e depois no forte distúrbio global iniciado em 11 de setembro de 2001. Em seguida aos horríveis ataques terroristas daquele dia, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, começou a caracterizar a luta entre o Ocidente e seus adversários como o confronto entre as forças da liberdade e as forças do mal.
Alguns célebres defensores de seu governo associaram isso à Segunda Guerra Mundial e advertiram que a própria sobrevivência do Ocidente estava por um fio. Alguns afirmaram que, para prevalecer, o Ocidente até mesmo deveria desconsiderar restrições ao comportamento militar. "Entre nós, mantemos a lei, mas quando operamos na selva, devemos também usar as leis da selva", escreveu o diplomata britânico Robert Cooper em um influente ensaio de 2002.
Pouco depois, os Estados Unidos e seus aliados começaram uma guerra preventiva no Iraque, iniciada com uma tentativa explícita de matar o chefe de Estado daquele país. Desde então, operações militares americanas envolveram uma série de conhecidas recaídas nas "leis da selva".
Nesse momento, é difícil saber como ou quando o período atual de instabilidade violenta e de perigo pode vir a acabar.
Tão distante, tão próximo. Porém, surpreendentemente, a descrição se aplica igualmente bem aos anos de 1789-1790, quando o colapso do Antigo Regime e o início da Revolução Francesa desencadeou imaginações esperançosas ao redor do mundo. Mesmo antes desses eventos, o pensamento avançado no Ocidente já começava a ver a guerra como um anacronismo em vias de desaparecer. Como escreveu um otimista clérigo inglês em 1784, "aproxima-se o tempo em que o som da trombeta e o alarme da guerra não mais serão ouvidos pela Terra".
Em 22 de maio de 1790, o novo governo revolucionário da França chegou ao ponto de publicar uma renúncia formal às "guerras de conquista", naquilo que foi chamado uma "declaração de paz ao mundo". Nela se prometia que dali em diante a França somente utilizaria suas forças armadas para a autodefesa. Apenas 23 meses mais tarde, contudo, a França invadiu a Bélgica, então sob domínio austríaco, iniciando um conflito que mobilizaria todas as principais potências europeias e continuaria, com breves intervalos, por mais de 23 anos, até a derrota final da França em 1815.
Desde o início, ambos os lados concebiam essa longa luta em termos apocalípticos: "uma guerra até a morte", como um de seus primeiros defensores franceses declarou, "que nós lutaremos [...] para destruir e aniquilar todos os que nos atacarem, ou para sermos nós mesmos destruídos".
Nenhum lado chegou ao ponto de praticar o extermínio explicitamente, mas guerras de guerrilha desesperadas e tentativas selvagens de reprimi-las geraram atrocidades por todo o continente em uma escala que não voltaria a ser alcançada até a Segunda Guerra Mundial. Como o próprio Napoleão Bonaparte explicou, antecipando Cooper, "custounos caro retornar [...] aos princípios que caracterizaram o barbarismo dos primórdios das nações, mas fomos compelidos [...] a lançar mão, contra o inimigo comum, das armas que ele utilizou contra nós".
Desnecessário dizer que os paralelos não podem ser exatos. A incrível amplitude do derramamento de sangue e destruição da Europa napoleônica --isto é, tanto a Europa em que Napoleão viveu como jovem oficial quanto aquela que ele veio a dominar como líder da França-- excedeu enormemente tudo o que se viu de 1989 para cá. Mas tampouco são os paralelos meros acasos. O final do século 18 e o início do 19 assistiram a mudanças fundamentais nas atitudes do Ocidente em relação à guerra e ao começo de um padrão histórico recorrente, do qual os eventos desde 1989 fornecem apenas o exemplo mais recente, embora também particularmente claro.
Nesse padrão, o sonho da paz perpétua e o pesadelo da guerra total estiveram vinculados de maneiras perturbadoras e complexas, cada qual a sustentar o outro. De um lado, uma ampla e persistente corrente de opinião pública continuou a ver a guerra como um fenômeno fundamentalmente bárbaro que deveria desaparecer de um mundo civilizado o mais rápido possível; de outro, houve uma tendência recorrente e poderosa a caracterizar os conflitos que efetivamente surgem como lutas apocalípticas a serem travadas até a destruição completa do inimigo e que poderiam ter sobre seus participantes um efeito purificador, quiçá redentor.
Hoje em dia, as linguagens indissociáveis da guerra e da paz definem os extremos do pensamento ocidental, em particular o americano, sobre o assunto, com "porta-vozes" de ambos os lados a desqualificar seus oponentes como espécies de loucos que negam a realidade: as pombas da paz "iludidas" versus os falcões "paranoicos" e "maníacos por guerra".
Alguns comentadores sofisticados interpretaram que essas linguagens refletem circunstâncias históricas recentes. Robert Kagan, por exemplo, estabelece um contraste: de um lado, está a Europa ocidental, que teria desfrutado de paz sem responsabilidades graças à proteção americana desde a Segunda Guerra Mundial, e que, consequentemente, esquiva-se da guerra; de outro, estão os Estados Unidos, que enfrentaram o tormento de ter um oponente após o outro. "Americanos são de Marte, europeus são de Vênus", conclui.
Mas, a rigor, essas linguagens tomaram forma muito antes da Segunda Guerra Mundial. E elas têm mais em comum entre si do que gostam de admitir os dois lados, pois em ambos os casos a guerra figura como algo totalmente excepcional, totalmente externo à ordem social estabelecida.
Não surpreende que intelectuais e políticos tenham com certa frequência se associado à ideia de que uma guerra final, aniquiladora, poderia paradoxalmente inaugurar o reino da paz perpétua. Para citar a mais famosa expressão dessa ideia, o tratado de H. G. Wells, The War That Will End War [A guerra que acabará com as guerras], de 1914: "Esta agora é uma guerra pela paz [...]. Esta, a maior de todas as guerras, não é apenas mais uma guerra-- é a última guerra!" Cento e vinte dois anos antes, o general e político francês Charles François-Dumouriez prometeu de forma semelhante: "esta guerra será a última guerra".
O fato de nós vermos a guerra através de lentes conceituais essencialmente estabelecidas e polidas dois séculos atrás na Europa não significa que nossa visão seja necessariamente distorcida. Obviamente, houve ocasiões em que o Ocidente esteve diante de um perigo apocalíptico.
Devemos, todavia, reconhecer o poder e a persistência dessas lentes, bem como os efeitos de distorção que elas podem ocasionar. Na década de 1990, uma relutância em utilizar força militar, em parte fundada na percepção da guerra como uma tolice anacrônica, levou ao sofrimento e à morte em massa nos Bálcãs e em Ruanda, enquanto estadistas ocidentais educadamente discutiam sanções e pressão política.
Apenas no primeiro caso eles por fim lembraram que existem bárbaros no mundo e que eles respondem somente ao uso da força. Considere-se também o seguinte: desde setembro de 2001, os Estados Unidos estão envolvidos em uma Guerra ao Terror que custou, até o momento, o mesmo número de vidas civis americanas que se perdem a cada duas semanas e meia em acidentes automobilísticos nas autoestradas do país. É o mesmo número de vidas que a União Soviética perdeu a cada seis horas, em quatro anos agonizantes, durante a Segunda Guerra Mundial.
Com todo seu desejo manifesto de adquirir armas de destruição em massa, nossos oponentes neste novo conflito até agora não demonstraram capacidade de empunhar nada mais poderoso do que facas, armas de fogo e explosivos convencionais. Isso pode até ser uma guerra, mas merece realmente comparação com a Segunda Guerra Mundial e seus 50 milhões de mortos? Nem todo adversário é uma ameaça apocalíptica. Mesmo assim, as linguagens com as quais estamos acostumados a discutir guerra e paz tornam difícil fazer emergir esta afirmação. Dito de modo simples, tornou-se muito difícil discutir guerra em termos não apocalípticos.
Por que isso ocorre? Por que o Ocidente sempre retorna àquelas concepções indissociáveis do fim da guerra e da guerra apocalíptica? Não se pretende aqui oferecer uma resposta a toda essa ampla questão. Neste livro, contudo, exploro como e por que o padrão começou. No centro da história está uma transformação extraordinária. Durante o século 18, bem como em séculos anteriores, a maioria das culturas ocidentais aceitava a guerra como uma faceta inevitável, e comum, da existência humana.
Governantes ocidentais viam a guerra como seu principal propósito e lutavam continuamente --durante o século 18, não mais do que seis ou sete anos se passaram sem ao menos uma grande potência europeia estar em guerra. Mas desde o fim dos terríveis conflitos religiosos da Reforma, as guerras se tornaram algo relativamente fácil de controlar e restringir. Os Exércitos eram relativamente pequenos; as grandes batalhas, relativamente pouco freqüentes (embora devastadoras, quando ocorriam); e os civis, relativamente bem tratados. De modo geral, líderes militares viam seus adversários como pares dignos de respeito. Isso não significa dizer que a guerra não fosse aterrorizadora.
A guerra é algo aterrorizador por definição. Mas os historiadores precisam ser capazes de distinguir graus de horror, e, se o século 18 não reduziu exatamente cães de guerra a "cãezinhos amestrados" (como Sir Michael certa vez formulou jocosamente), seus conflitos ainda estão entre os menos terríveis da história europeia.
Essas condições de guerra quase permanente e ao mesmo tempo controlada pareciam inteiramente naturais e apropriadas aos nobres que lideravam os Exércitos europeus sob o Antigo Regime. Isso permitia que os valores aristocráticos da honra e do serviço tivessem uma expressão perfeita sem ameaçar seriamente a estabilidade e a prosperidade sociais. A guerra decerto funcionava como uma espécie de teatro da aristocracia, assim como ocorria com as cortes reais da época. Na guerra, vidas e valores aristocráticos eram ostentados em meio a esplendor, refinamento, bravura e demonstrações de autoconfiança absoluta. As elites europeias do século 18 supunham que esse mundo duraria para sempre. Não se deram conta de que estavam à beira do eclipse total.
A transformação teve origem no plano intelectual. Durante o grande movimento de ideias a que hoje chamamos Iluminismo, pensadores influentes começaram a argumentar que o estado de guerra permanente talvez não fosse, de fato, o destino inexorável da humanidade. As sociedades humanas, segundo eles, seguiam um mesmo caminho de evolução histórica, do princípio selvagem a níveis cada vez mais elevados de civilização, gentileza e comércio pacíficos.
Desse ponto de vista, a situação então prevalecente de guerra restrita não representava um equilíbrio natural, mas sim um estágio no caminho rumo ao desaparecimento completo da guerra. Nos tempos modernos, a guerra logo se tornaria um estado de coisas detestável e excepcional, um vestígio grotesco da infância violenta do homem.
Esses pensadores não eram de modo algum os primeiros profetas da paz perpétua: pacifistas filosóficos e religiosos os precederam em muito tempo. Mas para cristãos devotos, em particular, o fato inescapável do pecado original implicava que um reino de paz somente pudesse resultar de uma mudança divina da natureza humana.
Os pensadores do século 18, ao contrário, descreviam a paz como a culminação de mudanças sociais inteiramente naturais, que já eram visíveis e ocorriam segundo leis cientificamente observáveis. Essa diferença os tornou os pacifistas mais convincentes, e aparentemente mais realistas, que o mundo jamais conhecera, e suas ideias rapidamente se tornaram senso comum entre europeus letrados, incluindo até mesmo muitos nobres e oficiais militares.
Mas ao mesmo tempo em que essas ideias ganhavam popularidade, outros europeus começaram a encarar o abismo da guerra e a ver não somente algo terrível, mas também algo cercado por um terrível fascínio, até mesmo por uma terrível qualidade sublime. Eles começaram a ver na guerra o teste final de uma sociedade e de um indivíduo; começaram a imaginá-la como uma experiência elementar, purificadora, redentora até-- e talvez, portanto, como uma experiência desejável.
A guerra poderia até ser fundamentalmente estranha a um modo de vida civilizado, mas seria a "civilização" necessariamente uma bênção? Não poderia a guerra servir como um corretivo à corrupção e à mesquinharia da existência civilizada? "A guerra é um dos fenômenos mais saudáveis para o cultivo da raça humana", escreveria o sábio alemão Wilhelm von Humboldt. "É o extremo concebível do assustador." Essa nova glorificação da guerra não marcou, entretanto, um retorno a sua anterior compreensão aristocrática. Ao contrário: a guerra continuou a ser vista como um estado de coisas excepcional e extremo, e não como uma faceta corriqueira da existência humana.
Para os entusiastas, já não era uma questão de autocontrole aristocrático, de estabelecer uma reputação emulando um modelo impessoal de glória. A guerra estava se tornando uma questão de autoexpressão romântica. Na verdade, o próprio conceito e a própria experiência do "eu" na guerra estavam mudando. Antes da Revolução Francesa, ideias desse tipo tinham pouco impacto nos governantes europeus e menos ainda na conduta de guerra, mas durante os primeiros três anos da Revolução (1789-1792), um dos mais importantes momentos de fermentação política e cultural de toda a história, elas explodiram na cena principal do debate político no maior e mais poderoso estado europeu.
Durante o mesmo período, a aristocracia francesa perdeu sua posição predominante no Estado e nas Forças Armadas de seu país e viu-se alvo de uma hostilidade revolucionária visceral. Como resultado dessas mudanças, quando a França pegou em armas em 1792, não foi para combater algo como as guerras limitadas conhecidas das potências do Antigo Regime.
O que se seguiu merece o adjetivo "apocalíptico". Os conflitos de 1792 a 1815 não testemunharam nenhum grande avanço da tecnologia militar, mas a Europa mesmo assim experimentou uma transformação extraordinária no escopo e na intensidade da guerra. Os números falam por si próprios. Mais de um quinto de todas as grandes batalhas travadas na Europa entre 1490 e 1815 ocorreram exatamente nos 25 anos depois de 1790. Antes de 1790, apenas um punhado de batalhas tinha envolvido mais de 100 mil combatentes.
Em 1809, a batalha de Wagram, então a maior jamais vista na era da pólvora, envolveu 300 mil. Quatro anos mais tarde, a batalha de Leipzig mobilizou 500 mil, dos quais 150 mil foram mortos ou feridos. Durante o período napoleônico, a França sozinha contabilizou quase um milhão de mortos de guerra, possivelmente uma proporção mais alta de seus jovens do que aqueles mortos na Primeira Guerra Mundial. Na Europa inteira, o número total de vítimas pode ter chegado a 5 milhões. Em um processo sem precedentes, as guerras trouxeram alterações significativas no território ou no sistema político de cada um dos Estados europeus.
A luta de guerrilha deixou feridas abertas em regiões da Espanha, da Itália, da Áustria, da Suíça e da própria França. Essa, portanto, foi a primeira guerra total. O conceito de "guerra total" merece uma explicação. Sua ressonância é enorme, e muitos historiadores usaram-no para descrever as guerras de 1792-1815. Parece também, contudo, tratar-se de um daqueles conceitos que ficam mais confusos à medida que dele nos aproximamos.
"Guerra total" é frequentemente definida como aquela que envolve a mobilização completa dos recursos de uma sociedade para atingir a destruição absoluta de um inimigo, apagando-se qualquer distinção entre combatentes e não combatentes. Essa formulação parece, à primeira vista, bastante clara. Mas será que alguma guerra real corresponde a esse padrão ideal? (Até mesmo um conflito termonuclear de grandes proporções não envolveria a mobilização de todos os recursos de uma sociedade!).
Caso a resposta seja negativa, o que determina qual guerra se aproxima suficientemente do ideal para se qualificar como "total"? As ambiguidades são tantas que um estudioso importante, Roger Chickering, chegou perto de concluir que o conceito deveria ser simplesmente descartado.
Creio que "guerra total" continua a ser um termo útil, mas apenas quando aplicado à guerra em um contexto político e cultural amplo. O que marcou os conflitos iniciados em 1792 não foi simplesmente seu escopo e sua intensidade radicalmente novos, mas também a dinâmica política que conduziu de modo inexorável os participantes em direção a um engajamento total e ao abandono dos limites. Mesmo antes de a França atacar a Áustria, muitos dos líderes políticos franceses tinham passado a ver a guerra dessa nova maneira, como um extremo insondável, estabelecido fora das fronteiras ordinárias da existência social, que poderia terminar apenas em vitória total ou em derrota total.
Essa visão levou a França a declarar guerra, não obstante lhe faltassem objetivos claros, práticos e estratégicos; produziu a convicção difundida de que os inimigos da França haviam eles próprios se inclinado a uma "guerra de extermínio"; ajudou a demonizar as populações inimigas e tornou quase impossível enxergarem-se soldados inimigos como adversários respeitáveis e não combatentes inimigos como espectadores inocentes; levou a França a conquistar cada vez mais territórios como uma zona de contenção contra aqueles inimigos e a impor reformas revolucionárias mesmo onde isso se desse ao preço de graves levantes. Tais ações levaram os inimigos da França, especialmente os rebeldes contrários às ocupações francesas, a adotar uma visão igualmente radical do conflito.
Em suma, os franceses defensores da guerra estabeleceram uma corrida ao abismo que não podia ser facilmente revertida, mesmo depois de terem eles próprios saído de cena. Napoleão Bonaparte, a despeito de seu gosto pela conquista, não era um defensor consciente da guerra total (e menos ainda o lendário megalomaníaco sedento por sangue). Foi, contudo, a intensificação radical da guerra que lhe deu destaque e poder, e, no fim, ele já não podia contê-la: Napoleão foi, sucessivamente, produto, senhor e vítima da guerra total.
Como argumentou de modo convincente o estudioso francês Jean-Yves Guiomar, é essa fusão entre política e guerra que distingue uma "guerra total" moderna de incidentes anteriores em guerras sem restrições e mesmo de extermínio. De conflitos assim, desnecessário dizer, a humanidade guarda um longo e lamentável registro antes do século 18. Tais conflitos não tiveram, no entanto (exceto em algumas áreas geograficamente confinadas, como as cidades-Estado), tentativas concertadas de subjugar, com fins exclusivamente militares, sociedades inteiras.
Esse fator é o que aproxima os conflitos de escala continental de 1792-1815 das guerras mundiais do século 20. Efetivamente, o termo "guerra total" surgiu na França e na Alemanha no fim da Primeira Guerra Mundial, não apenas para descrever as lutas, mas também para ajudar a vislumbrar conflitos ainda mais violentos, nos quais as nações concentrariam todas as forças disponíveis para um golpe único, poderoso, destruidor. No discurso que na Segunda Guerra Mundial conferiu uma notoriedade especial ao termo --Joseph Goebbels gritando para uma multidão de nazistas no Palácio de Esportes de Berlim "Wollt ihr den totalen Krieg?" ("Vocês querem guerra total?")--, ainda se fazia referência a um futuro a ser realizado, não ao passado ou ao presente.
Convocações ao engajamento total, observa Guiomar, tenderam a vir muito mais de líderes políticos civis do que de militares profissionais. Esse é, portanto, o argumento essencial de A primeira guerra total. As transformações intelectuais do Iluminismo, seguidas pela fermentação política de 1789-1792, produziram novas maneiras de entender a guerra que tornaram possível a intensificação cataclísmica dos combates pelos 23 anos seguintes. Desde então, os mesmos processos deram forma ao modo pelo qual as sociedades ocidentais enxergaram o conflito militar e nele se engajaram.
Esse é um argumento novo. Entre os historiadores, o senso comum há muito atribui a intensificação da guerra depois de 1792 a dois diferentes fatores. Primeiro, eles citam a ideologia revolucionária, sugerindo que as guerras ganharam corpo a partir do conflito entre sistemas de crença fundamentalmente incompatíveis, um radicalmente igualitário e outro conservador e hierárquico. Depois, eles invocam o nacionalismo, argumentando que, embora guerras anteriores houvessem lançado casas dinásticas umas contra as outras, esses novos conflitos ocorreram entre nações inteiras que chegavam a novos estágios de autoconsciência.
Tanto ideologia quanto nacionalismo desempenharam papéis imensamente importantes na história desse período. Mas seriam eles os principais fatores conducentes à intensificação da guerra? Ambas as explicações datam do próprio período em questão e ecoam de forma muito clara justificativas para a guerra dadas à época. Por exemplo, o conservador britânico Edmund Burke, em 1796: "É contra uma doutrina armada que estamos em guerra [...] se ela puder existir, prevalecerá."
Ou o futuro estrategista militar Carl Von Clausewitz, em 1812: "[Agora] não é o rei quem trava guerra contra o rei, nem um Exército contra outro Exército, mas um povo contra outro povo". Ademais, ambas as explicações reduzem a guerra a pouco mais do que um instrumento de objetivos políticos cambiantes. Nenhuma delas faculta qualquer objetivo de se tratar a guerra como uma atividade significativa e dinâmica por si mesma, que por sua vez tem efeitos profundos e complexos na política e na cultura (não surpreende que a famosa definição da guerra como "a extensão da relação política, conduzida por outros meios" deriva do período --do próprio Clausewitz).